Abismo e encontro
Martha Medeiros
Na terra do era uma vez, pai e filha estavam separados. Só podiam imaginar como seria bom se pudessem se abraçar, confidenciar emoções ou dançar juntos. Mas as distâncias nem sempre são eternas.
Poucos meses atrás recebi de presente um livro infanto-juvenil chamado O Pai da Filha e a Filha do Pai. Texto de Adriana Jorgge e desenhos de Kiko Farkas, um uma bela edição em capa dura da W11.
O livro é apresentado como “uma história de amor eterno com abismo no meio e encontro no fim”. Começou bonito.
Era uma vez um pai e uma filha separados por um abismo. Não conseguiam saltar um para o lado do outro, ficavam apenas imaginando como seria bom se pudessem se abraçar, confidenciar emoções ou dançar juntos. Passaram a vida com este corte no meio, impedidos de se unirem. Até que um dia resolveram acabar com esta distância. Saltaram ambos, ao mesmo tempo, para dentro do abismo, a fim de se encontrarem lá embaixo, naquele buraco escuro onde temiam defrontar-se com monstros e lagartos. Mas, ao chegarem lá no fundo, não foi monstro nem lagarto que encontraram, e sim lembranças quase esquecidas, palavras engasgadas, frases que nunca chegaram a ser ditas.
É esta história contada por Adriana, mas que poderia ser contada por tantas outras filhas e também filhos que vivem separados de seus pais por abismos diversos: ou o pai separou da mãe muito cedo e nunca mais apareceu, ou o pai vive pertinho mas não permite intimidade, ou pais e filhos têm uma visão muito diferente da vida e não se entendem, ou o pai tem medo de demonstrar seus sentimentos, ou são os filhos que têm. Cada um sabe a profundidade do corte que a relação sofreu.
No livro, o abismo é gigantesco. Porém, todo abismo começa como um pequeno fosso, ele só se expande porque a gente deixa que isso aconteça, e aí, com o passar do tempo, vira algo aparentemente intransponível. Mas só aparentemente. Havendo intenção de entendimento e um pouco de coragem de ambas as partes, descobre-se que o que afasta mesmo é o silencio, aquilo que as pessoas deixam para verbalizar apenas no leito de morte: as tais palavras engasgadas e frases que nunca foram ditas. Eu não esperaria tanto.
Hoje é dia de celebrar os pais que estão ao alcance dos nossos abraços, ou que, mesmo ausentes em presença física, preservam a sintonia, a cumplicidade, bastando um telefonema para saudá-lo. Porém, há abismos por ai, a gente sabe. Se for o seu caso, talvez seja a oportunidade perfeita para dar de presente o livro da Adriana Jorgge e do Kiko Farkas – uma espécie de convite para saltar juntos em busca da aproximação. É um livro infantil, mas convenhamos, toda separação entre pessoas que se amam é infantil.
E termino esta crônica da mesma maneira que o livro delicadamente termina: Fim (ou começo).
Domingo, 8 de agosto de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.